Dinis Machado

[14Nov11]


O QUE DIZ MOLERO


DINIS MACHADO


«Temos a seita dos calmeirões, os Vai ou Racha», disse Austin, «que já tinham sido os Malhoas e os Roquetes, e que mais tarde seriam os Sertórios. O rapaz via-os, rua acima, rua abaixo, gingando o corpo, fazendo gestos vagamente obscenos para a janela das costureirinhas, combinando petiscadas, provocando quem passava, uma discussão, uns tabefes, umas sandes de presunto, uns copos de vinho tinto, a ronda nocturna pelas casas de prostitutas, as últimas anedotas contadas sob a lua alta e as estrelas, o jogo das moedas à luz esverdeada do candeeiro de gás, fantasmas movendo-se, os últimos de cada dia, na tranquilidade do bairro adormecido. Molero enumera-os: o Pé de Cabra, que era o chefe e que fazia contrabando de tudo, desde relógios suíços a cigarros Camel e Lucky Strike, que tinha como passatempo favorito dar carolos, pancadas com os nós dos dedos nas cabeças deste e daquele, principalmente dos mais miúdos, para enrijar a moleirinha, dizia ele; o Gil Penteadinho, que vivia de mulheres, jogava à pancada com a mãe todos os dias por causa disso e andava sempre a atirar uma moeda ao ar como, depreende Molero, George Raft no Scarface; o Bexigas Doidas, que não era bexigoso, como se poderá supor, tinha uma doença de pele e coçava-se muito, às vezes os outros coçavam-lhe as costas porque ele não chegava lá; o Lucas Pireza, que ganhava todos os concursos de tango nas sociedade de recreio, tinha o pai na Mitra e dava cem toques na bola com o pé esquerdo sem a deixar cair; o Metro e Meio, que nem Metro e Meio parecia ter, crescia para os lados, não para cima; o Tonecas Arenas, que usava sombrero, falava de touradas que nunca tinha visto, nunca viu nenhuma, vendia imagens religiosas à porta das igrejas, e também fotografias pornográficas para eventuais turistas depravados, tudo isto à Comissão, o fabricante era o mesmo; o Peito Rente, que tinha uma expressão muito dele quando achava bem qualquer coisa, dizia isso é rachmaninófico, é rachmaninófico, e que golfava sangue quando chegava o Outono. [excerto das páginas 33-34]

Primeira edição de uma obra icónica da literatura portuguesa da segunda metade do século xx (foi publicada recentemente, pela Quetzal, a 22.ª edição). Capa de Saldanha Coutinho. 182 páginas. 12 x 19 cm. Bom exemplar, salvo assinatura de posse no canto interior de rosto e ante-rosto. Lisboa: Bertrand, 1977.

Raro.

Preço: 40 euros.



DISCURSO DE ALFREDO MARCENEIRO
A GABRIEL GARCIA MARQUEZ


DINIS MACHADO


Ilustrações de Fátima Vaz. Primeira edição. 30 páginas. 14 x 21 cm. Lisboa: Bertrand, 1984. Invulgar.

Preço: 15 euros.


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